A intercessão dos santos na Bíblia

Dave Armstrong - Tradução: Equipe CNP | padrepauloricardo.org

Novembro. 09, 2021

Há diversos indícios bíblicos de que, no Céu, os santos estão bem conscientes do que ocorre na terra. Como morreram em Cristo, eles estão “mais vivos” e têm mais consciência das coisas do que nós. É tolice, pois, excluí-los de nossa vida de oração.

Há diversos indícios bíblicos de que, no Céu, os santos estão bem conscientes do que ocorre na terra. Um dos mais claros é este: “Desse modo, cercados co­mo estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhe­mo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto” (Hb 12, 1).

Esse pareceria um bom argumento bíblico contra a negação de que os santos “conhecem nosso atual estado na terra” ou contra a ideia de que, para saberem o que acontece aqui, eles devem estar “próximos da onisciência”. Os santos sabem o que se passa conosco porque se encontram num estado de conhecimento superior ao nosso. Ser mais inteligente ou ter mais consciência não implica, logicamente, algo próximo à onisciência. A posse de muito conhecimento ainda pode estar a milhões de “quilômetros” da posse de todo o conhecimento, ou seja, da onisciência. Trata-se de um falso dilema ou da tentativa de estabelecer uma “falsa equivalência”.

A Bíblia diz que “julgaremos os anjos” (1Cor 6, 3) e que, “quando isso se manifestar [i.e. o que havemos de ser], sere­mos semelhantes a Deus” (1Jo 3, 2). Jesus disse: “Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30). É razoável supor que, na vida após a morte, teremos um conhecimento no mínimo semelhante ao dos anjos (algo que é, por si só, extraordinário). A Bíblia diz: “Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa” (Lc 15, 10). Quem tem alegria? Quem se regozija? As pessoas que estão no céu!

Vemos um exemplo de “oração imprecatória” no Céu, pedindo por justiça (cf. Ap 6, 9-11). Observamos homens no Céu (cf. Ap 5, 8) e também anjos (cf. Ap 8, 4) que possuem de algum modo as “orações dos santos”. Por quê? Alguém poderia nos dizer, por obséquio, o que estão fazendo com elas? Por que estão minimamente envolvidos com a oração? Trata-se, claramente, de intercessão.

Se se define “oração” simplesmente como falar com alguém e fazer-lhe um pedido, então sim, nós rezamos aos santos (e devemos fazê-lo!). No mesmo sentido, “rezamos” também aos nossos amigos na terra. Tanto num caso como noutro, porém, pedimos por sua intercessão junto a Deus; não os tratamos como se fossem Deus [1].

Mas se se define “oração” como falar com o único ser que tem, no fim das contas, o poder de dar respostas [efetivas] à oração (que é Deus), então propriamente falando ela é dirigida só a Deus, ainda que através de intermediários.

O problema dos argumentos protestantes contrários à comunhão dos santos é que eles confundem o recurso a intercessores intermediários na oração (isto é, os que já faleceram) com pedidos a eles como se tivessem a capacidade de atender à oração, embora apenas Deus tenha esta prerrogativa e poder.

As orações católicas dirigidas aos santos (entendidas corretamente, de acordo com o dogma católico) pressupõem isso; mas, por não ser algo afirmado com frequência, muitas vezes os protestantes supõe de forma equivocada que os católicos acham que os santos podem atender nossas orações por si mesmos, independentemente de Deus. Essa (um ponto muitíssimo importante) é a falácia ou o equívoco (ou ambos).

Os protestantes podem contestar por que determinados santos têm uma influência especial ou particular junto de Deus, além de orações mais eficazes em áreas específicas (é a nossa noção de santos padroeiros). Mas não há motivos para levantar objeções. A Bíblia ensina claramente que pessoas diferentes têm diferentes níveis de graça (cf. At 4, 33; 2Cor 8, 7; Ef 4, 7; 1Pd 1, 2; 2Pd 3, 18). Parece-me que, por essa razão, alguns deles podem se especializar em certas áreas mais do que outros, de acordo com diferentes partes do Corpo de Cristo (há muitos ensinamentos paulinos sobre isso).

Não vejo razões para considerar essa prática controversa ou questionável. Geralmente, essa doutrina é questionada por causa de excessos que se observam, mas raramente se apresenta contra ela um argumento robusto com base na Sagrada Escritura.

Permanece ainda o fato de que “a oração do justo tem grande eficácia” (Tg 5, 16). No contexto mais amplo dessa passagem, Tiago afirma: “Elias era um homem pobre como nós e orou com fervor para que não chovesse sobre a terra, e por três anos e seis meses não choveu. Orou de novo, e o céu deu chuva, e a terra deu o seu fruto” (Tg 5, 17s).

Não se segue, portanto, que Elias parecia ter uma influência particular sobre o tempo? Logo, por que não poderíamos pedir que ele (e não outra pessoa) rezasse a Deus para melhorar o tempo, uma vez que ele já pediu outras vezes que a chuva fosse interrompida, e isso de fato aconteceu durante três anos e meio? Com isso não se tornou ele, de alguma forma, o “santo padroeiro da meteorologia”?

Fazemos praticamente a mesma coisa nesta vida com nossos amigos, no nível da empatia. Se, por exemplo, uma mulher enfrenta dificuldades com abortos espontâneos, gravidezes ou partos difíceis, ela pode procurar uma mulher que tenha enfrentado as mesmas coisas e pedir-lhe orações por sua situação.

Não vejo aqui nenhuma dificuldade intrínseca. Os católicos nunca negam a ninguém a capacidade de “ir direto a Deus” [2]. Mas afirmamos com Tiago que certas pessoas têm mais poder (também quanto a certas especificidades); logo, é razoável tê-las como mediadoras. Assim, também, na mesma passagem nós vemos alguns “fatores de oração diferenciados”: “Está alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor” (Tg 5, 14).

A passagem não diz: “Vá diretamente a Deus e, se não o fizer, correrá o risco de cair em idolatria”. Não: a pessoa doente é aconselhada a buscar os anciãos para que eles possam rezar e ungir.

Os mortos em Cristo estão mais vivos e têm mais consciência do que nós; portanto, é tolice excluí-los de nossa vida de oração.