A santidade de Teresa d’Ávila e a nossa

Jennifer Sokol | Tradução: Equipe Christo Nihil Præponere

Santa Teresa d’Ávila nos ensinou que, seja a nossa vida curta ou longa, devemos decidir servir ao Senhor hoje. Então “pouco a pouco”, ela prometeu, “sem saber como, estareis no auge”. Como ela está agora, e para sempre.

Em 1568, ia-lhe muito bem a Teresa de Ávila a vida de carmelita, enquanto prosseguia, em meio a provações físicas e espirituais, com suas viagens pelas estradas acidentadas da Espanha a fim de estabelecer novos mosteiros em casas de segunda mão, necessitadas muitas vezes de reparos urgentes. Entrementes, enfrentava a oposição contínua dos que se sentiam ameaçados por sua missão, recebida das mãos do Senhor, de reformar a Ordem do Carmo.

Agora, vendo-a sentada à escrivaninha numa austera cela monástica, imagino o pequeno sorriso com que ela pegou da pena já gasta, mergulhou-a na tinta e, obediente aos confessores, continuou a escrever sua autobiografia e a relatar como teve, ainda aos sete anos, ideias tão equivocadas sobre a santidade, colhidas da leitura de vidas de santos junto com o irmão mais velho, Rodrigo.

“Como via os martírios que as santas passavam por Deus”, começou ela, “parecia-me que pagavam muito pouco para o gozo de Deus, e eu desejava muito morrer assim, não pelo amor que achava ter por Ele, mas para gozar, tão cedo, dos grandes bens que lia haver no céu”. O aparente baixo “preço de venda” do martírio para o gozo rápido da bem-aventurança celeste era-lhe tão atraente, que ela e Rodrigo planejaram fugir de casa e ir a terra de mouros, que naquela época estavam assassinando cristãos, e suplicar-lhes por amor a Deus que os “decapitassem” (Livro da Vida I 4).

Em 12 de março, a Igreja celebrou o quarto centenário da canonização de Santa Teresa d’Ávila, elevada à honra dos altares pelo Papa Gregório XV em 1622. Embora sua tentativa de fugir para ser martirizada tenha sido embalde, esse episódio infantil da vida de Teresa é fundamental para demonstrar não apenas o grande desejo e a coragem, mas também a imensa determinação que desde a infância a motivava, uma qualidade que o Senhor purificaria e fortaleceria em preparação para a futura tarefa de guiar os outros pelos caminhos sagrados, embora às vezes perigosos, da oração. Para Teresa, a oração autêntica não era possível sem determinação, especialmente nos estágios iniciais.

Era a voz da experiência. “Em vinte oito anos de oração, passei mais de dezoito”, explicou, referindo-se aos primeiros anos no Carmelo, quando lutava para deixar de lado os prazeres vãos, “nessa luta entre lidar com Deus e lidar com o mundo” (Livro da Vida VIII 3). De fato, preferia passar o tempo buscando meios de causar boa impressão nos seus superiores e confessores, e em conversas mundanas com amigos no locutório. Sobre as duas horas de lei dedicadas à oração privada todos os dias, confessou:

Muitas vezes, durante alguns anos, eu me preocupava mais em desejar que passasse o tempo para mim determinado de estar ali e em escutar quando batia o relógio, do que em outras coisas boas. Com frequência, acolhia com maior vontade alguma penitência grave do que o recolhimento em oração (Livro da Vida VIII 7).
Só em retrospectiva Teresa se deu conta do papel que a determinação tivera em ajudá-la a perseverar durante os laboriosos anos de oração, os quais levaram enfim a um ponto de virada quando, entrando certa feita no oratório, seus olhos depararam com uma imagem de Jesus flagelado na coluna. Ela caiu de joelhos, enquanto lágrimas de arrependimento lhe escorriam pelo rosto. Olhando para Jesus como nunca antes, compreendeu subitamente o sofrimento que Ele suportou por amor a nós e sentiu profundamente sua ingratidão: “Lancei-me aos seus pés, derramando muitas lágrimas e suplicando-lhe que me fortalecesse de uma vez, para que eu não o ofendesse” novamente.

Sua oração foi atendida assim que ela se levantou, fortalecida em determinação e, como um estrondo grave e repetitivo, qual um ponto pedal de órgão numa fuga de Bach, repetiu o mesmo “motivo” de determinação através do exemplo de suas ações e em todos os seus escritos pelo resto da vida.

Devemos nos doar com total determinação, pois “o que Ele quer é essa determinação”, escreveu, encorajando-nos, apesar de nossa fraqueza, a perseverar em oração com o Senhor. “Sua Majestade já conhece a nossa miséria e baixeza natural melhor do que nós mesmos, sabendo que essas almas desejam sempre pensar nele e amá-lo” (Livro da Vida XI 15).

Ela exortou a perseverar com confiança os tentados a abandonar a oração nos passos iniciais da vida espiritual. Jesus, dizia ela por experiência própria, é amigo de todos os que caminham com humildade e não confiam em si. Em tempos de tentação, exortava a manter os olhos fixos em Jesus, com “grande e muito decidida determinação” (Caminho de Perfeição XXI 2), virtude que serve de um fundamento sólido contra o ódio e as insídias do diabo, impotente contra os determinados a carregar a cruz sem consolo. Assim ordenou Jesus a todos os que se quiserem verdadeiros discípulos seus: “Tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9, 23).

Como mudara o conceito de santidade de Teresa já no final da vida! Se na infância ela desejava o martírio como uma “via expressa” para o céu, agora, como fruto da determinação e também de uma vida toda de provações, de trabalhos para a Ordem do Carmo e de perseverança na oração, agora podia saciar-se com a “água viva” prometida por Jesus à samaritana (cf. Jo 4, 14), com a união a Deus em sua alma. Ela partilhou de sua sabedoria com as filhas carmelitas, e também com todos nós, ao escrever:

Claro está que o verdadeiro religioso ou pessoa de oração que pretende obter graças de Deus não pode recusar o desejo de morrer pelo Senhor e de por Ele sofrer martírio. Pois já não sabeis, irmãs, que a vida do bom religioso que deseja ser um dos amigos mais chegados de Deus é um longo martírio? (Caminho de Perfeição XII 2)
Teresa nos ensinou que, seja a nossa vida curta ou longa, devemos decidir servir ao Senhor hoje. Então, aos poucos, ela prometeu: “Sem saber como, pouco a pouco estareis no auge” (Caminho de Perfeição XII 3).